

Uma aluna encontra-se com o seu professor no gabinete deste. Três vezes. Primeiro para discutir a nota de uma disciplina na qual tem vindo a ter dificuldades (cuja bibliografia conta com um livro da autoria do próprio professor). Depois, num segundo momento, para falar acerca de uma suposta situação de assédio que terá tido lugar no primeiro encontro. E mais tarde, para apresentar as exigências de um grupo de alunos que sustentam a acusação.
Entre as duas personagens estabelece-se um ambiente que nos é familiar, um lugar onde a verdade é relativa e onde o espaço ocupado pela dúvida deixa pouco espaço para certezas. Num jogo de poder assente nas esferas do público e do privado, chegamos a sentir que (tal como hoje em demasiadas circunstâncias) mesmo estando presentes, podemos não conseguir distinguir o que é verdade e o que não é verdade. Segundo o próprio autor “seja qual for a conclusão a que chegue, está errada.”
Oleanna remete para uma utopia, é o nome de uma colónia no estado da Pennsylvania onde a vida humana não conseguiu assentar por causa da densidade da floresta. Simbolicamente, aqui representa a utopia que é a educação, o ensino superior, a academia. Onde nos encontramos com a possibilidade de que, talvez, o mundo que tenhamos andado a construir, não seja compatível com a construção da nossa humanidade.
Oleanna é um texto muito, muito complexo. Desde logo pela simbologia que o título comporta. Os pressupostos que determinam a sua leitura levaram a que o autor tivesse afirmado: “Seja qual for a conclusão a que você chegue, está errada!”. Do meu ponto de vista, este texto, datado de 1992, não recomenda hoje uma abordagem de tipo realista para a que a sua construção remete - e assim, em regra, tem sido abordado em todo o mundo.
As características do mundo em que hoje nos movemos, com as suas diversas complexidades, recomenda, segundo entendo, uma abordagem estética e artística de outro tipo, mais simbólica. À medida que o fui lendo, analisando e interiorizandodei-me conta da existência de uma terceira “personagem”: o telefone. Tanto quanto julgo saber, foi o encenador Ricardo Pais quem a introduziu na sua encenação de Oleanna, em 2019. Quero acreditar que no conjunto e diversidade de múltiplas influências, este nosso espetáculo resulta mais enriquecido pelas anteriores versões que dele tive notícia.
Luís Vicente / Encenador
Vídeo
Interpretação
Ficha Artística, Técnica e de Produção
Texto: David Mamet
Tradução: Sara Vicente
Encenação: Luís Vicente
Assistência de Encenação: Rafael Davide Góis
Interpretação: Luís Vicente e Tânia Silva
Cenografia e Figurinos: Rafael Davide Góis
Design e Ilustração: Pedro Oliveira
Conteúdos e Edição: Joana Guita
Desenho e Operação de Luz: Octávio Oliveira
Desenho e Operação de Som: Diogo Aleixo
Fotografia: Rui Carlos Mateus
Divulgação: Rita Merlin
Comunicação: Sofia Rodrigues
Produção Executiva: Raquel Taveira
Direção Artística: Luís Vicente
Coprodução: ACTA, Teatro Municipal Joaquim Benite/CTA e Cineteatro António Lamoso






